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CONTOS - LIVRO ZERO - 25 de fevereiro de 2021

Livro 0 – Introdução ao Abandono

– Pois é, finalmente o dia chegou, o dia em que você ia poder dizer “algum desses filhos da puta de videntes acertou”, eu te entendo, garoto, eu também não levava muita fé nele, mas aquele mineirinho magrelo com seus óculos esquisitos realmente fez a diferença, ele conseguiu ver antes de todo mundo que nós todos íamos nos foder e ainda avisou com uns 50 anos de antecedência… – Hannow dá uma longa tragada no cigarro.

– Nego chamava de “a data limite da humanidade”, era isso ou qualquer outra merda que os jovens gostavam de inventar entre uma babaquice e outra que acreditavam que era importante, mas pelo azar deles espiritismo não estava na moda, ninguém mais falava daquele médium, das cartas e de que quando um cara sabe fazer muito bem uma coisa, ele pode ser muito bom em outra… E ele foi, e ninguém lembra ou lembrou do que ele disse, e falando assim até parece que tô falando do Jesus, não é? Mas Jesus era só um babaca alcoólatra amante de prostitutas, ele não definiu o dia em que essa porra toda ia ficar do jeito que está, aquele magrelo sim e com isso tivemos a nossa “data limite”. – Hannow dá um gole curto na vodca barata.

 

– Na visão dele era bem simples, um belo dia Deus ia ficar de saco cheio das merdas que fazemos e finalmente ia lançar na humanidade uma espécie de prova final, a última chance do ser humano olhar um pro outro, geral se abraçar, aquela porra toda de John Lennon… Então tivemos a “pandemia de 2020”, não foi nada tão dramático como os filmes mostram, alguém transou com um morcego, depois foi num puteiro e então engravidou uma chinesa e o neném espirrou na cara do médico… – Hannow solta uma gargalhada debochada e continua – Tô brincando com você, garoto, nenéns não espirram, mas tudo começou com uma gripe, dizem que foi na China, mas todos nós sabemos que isso não importa, o que realmente importou é que a tal da gripe se espalhou, afinal é isso que uma gripe faz, porém essa tinha um índice de morte bem mais alto do que os caras que a inventaram esperavam, então deu merda e se você está aqui me ouvindo deve ter visto essa porra toda no jornal, foi uma grande merda, morreu gente pra caralho… gente pra caralho. – Por um segundo Hannow olha fixo para o chão, depois dá uma longa tragada, um longo gole e continua.

 

– Com isso muita gente já dizia que o mundo ia acabar, as pessoas mudaram de comportamento, elas pareciam estar mudando, sabe a frase “o sufoco faz o sapo pular”? Pois é, tava bem assim, e mais e mais gente morrendo, ricos e pobres, gente ruim e gente boa, adultos e crianças, se respirasse corria risco… Mas então assim como toda pandemia ela passou, inventaram remédio, vacinas e enfiaram a agulha em pessoas que nem sabiam o que era remédio, demorou mais do que deveria mas em um dado momento a vida dos seres humanos “voltou ao normal” … Mas você não veio aqui pra me ouvir falar de gente né, vamos falar “DELES” então.

 

– O magricela que sabia do fim da porra toda nunca disse que o mundo ia acabar, ele dizia que um dos penados lá de cima tinha mandado a fofoca pra ele que o Papai tava puto e que rolaria essa espécie de “prova final”, uma grande crise seria aplicada à humanidade, assim como dilúvio, Sodoma e Gomorra, maldições do faraó, essa merda toda bíblica que não serve pra nada, a nossa seria a “pandemia de 2020”, e a regra era bem clara, se nós melhorássemos com o que passamos os próprios anjos desceriam do céu e trariam saúde, paz e sabedoria para uma nova era da humanidade… Foda pra caralho, né garoto? – Hannow dá outro gole na vodca – Porém se a humanidade se mostrasse um bando de merdas, Deus em sua eterna bondade ia fechar a porta do sótão e nunca mais iria descer ou poderíamos subir lá, e como merda pouca é bobagem ele também rebaixaria nosso plano para “plano inferior”, algo como abrir acesso da porta do porão pra entidades que antes não podiam vir aqui porque ainda éramos os favoritos de Deus… éramos. – Hannow olha pro céu apontando o dedo do meio.

 

– É quando a merda toda começa, pandemia foi a prova, o teste, e adivinha garoto? Pelo visto a humanidade foi pra balada na noite anterior à prova, fomos reprovados com maestria, nosso Papai foi comprar cigarro e pelo visto não vai voltar e nós, nós ficamos presos no porão com os amigos bêbados e pedófilos dele.

 

– O que aconteceu? Sério moleque que você não percebeu? Olha ao redor desse chiqueiro que estamos, tem todos esses filhos da puta enchendo a cara com bebida barata e essas vagabundas loucas pra engravidar de um Enzo, mas ignora isso, e presta mais atenção no que eles não estão vendo… Hoje em dia qualquer um mesmo sem dons mediúnicos já consegue ver essas merdas, tá cheio de verme em cima deles e atrás daquele cara tem um bicho com um canudo enfiado no fígado dele, conseguiu ver? Pois é, temos tantos deles hoje em dia que qualquer um que saiba que eles existam consegue ver, e quisera eu que eles fossem o problema, essas merdas aí sempre existiram e sempre se alimentaram desses viciados e vagabundos, a merda mesmo são os bichos que NÃO conseguiam vir, e agora chegam aqui de UBER.

 

– A Terra, ou plano terreno, ou o nome que você quisesse chamar isso aqui, era um plano de expiação, uma espécie de lugar onde as almas vem com o intuito de ascenderem à Deus, vinha alma de tudo que era plano pra cá, a maioria do Umbral, algumas já eram daqui mesmo, elas ganhavam uma “capa de carne” e iam fazer seus truques, o cavalo mais esperto ganhava uma medalha e ia ficar com Papai do céu, os que perdiam ou ficavam pra uma próxima rodada ou viravam sabão no Umbral, bem simples né? Anos e anos se passaram com a gente fazendo e refazendo os truques pra papai ver, nós só não sabíamos que ia ter uma tentativa final e que seríamos jubilados da casa dele pra sempre, então agora é essa a diferença, não somos mais o brinquedo favorito do papai que ele gostava de ver fazendo truques, somos o brinquedo quebrado que não tem conserto e ele jogou no lixo com os outros, o nosso plano, nossa realidade,  não é mais o “armário de brinquedos” do cara, é a lixeira, e essa lixeira, garoto, tem nome… INFERNO. – Hannow tenta dar um último gole numa garrafa já vazia.

 

– Pois é, garoto, foi bom papear contigo você não fala muito, gosto quando não falam.

 

Hannow se levanta de um caixote velho e sujo que lhe servia de cadeira, ao seu lado uma figura que parecia com um homem jovem, muito magro coberto de trapos velhos exalando uma fumaça negra e fétida, ergue a cabeça mostrando suas cavidades oculares vazias e “escorrendo fumaça” tenta abrir o que parecia ser uma boca, mas de tão deformada poderia ser chamada apenas de “buraco”. – Hannow continua.

 

– Pois é garoto, eu não sei o que aconteceu com você durante aquela merda toda, mas pra mim você é trabalho… – Hannow joga algo na criatura que parecia sal grosso enquanto sussurrava algo incompreensível. A criatura solta um berro como se pregos quentes estivessem sendo cravados em seus ossos.

 

De fora do beco Hannow acende um cigarro enquanto olha pro céu, solta uma baforada longa e densa que formam desenhos encaracolados na fumaça, ele pode ouvir os gemidos de dor vindo do beco, ele aguarda alguns segundo até que o som suma, porém esboça um sorriso que mais parecia uma cara de desespero e fala pra si.

 

– Esqueci, não some mais… não mais.


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