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CONTOS - LIVRO ZERO - 5 de abril de 2021

Livro 0.2 – Quadros

“Até que a resposta veio rápido” – Pensava Hannow enquanto acendia um cigarro e caminhava em direção à ladeira dos bêbados da Lapa, deixando pra trás um bar com pseudo-playboys com egos feridos e gritos de “Eu te pago pra você impedir ele, vai atrás dele”, e seguranças grandes e fortes parados olhando pro nada como se estivessem hipnotizados, talvez estivessem, ou não deixariam Hannow humilhar tanto aquele filhinho de papai na frente de todos naquele bar, todos os que pra ele pareciam importantes, apenas pessoas que ele nunca iria saber o nome mas que ao invés de ajuda-lo enquanto Hannow explodia a cabeça dele contra a mesa de granito, apenas filmavam com seus celulares e postavam em alguma rede social cheia de idiotas… Tudo por atenção, tudo por um “like”, mas o playboy não imaginava que um dia seria ele sendo o alvo do canibalismo social, e provavelmente isso deve ter doído bem mais que as pancadas que levou, tanto que ele só entregou a informação não depois do sangue escorrer pelo seu nariz ou depois de sentir os dentes soltando de sua gengiva, mas sim quando conseguiu ver, entre as pancadas, a quantidade de pessoas filmando, e foi então que ele desistiu do seu orgulho e então entregou quem não deveria.

O local indicado estava na frente de Hannow, ele já conhecia bem o lugar, frequentava bastante antes da “merda toda” acontecer, mas ele não imaginava que o Pintor ainda estivesse vivo e nem que teria a cara de pau de permanecer no mesmo lugar. Era um prédio comercial do tipo clássico da lapa, primeiro andar com portas grandes de metal e sempre alguma escada obscura para um segundo andar, às vezes para um porão sombrio também, mas hoje as portas estavam quase todas fechadas, apenas uma semi porta estava disponível e aberta, e como não podia faltar, dois caras bem grandes fazendo cara de “não vai rolar”, um de cada lado.

Hannow olha ao redor e percebe que a movimentação na rua já não é tão intensa, mas uma pancadaria ali iria chamar atenção indesejada, se bem que pelo tamanho dos caras não seria uma pancadaria, mas um massacre, então tava na hora de tentar fazer algo menos imbecil que simplesmente estourar garrafas na cara de alguém…

Hannow, para em frente aos dois brutamontes, acende um cigarro e olhando ao redor faz a pergunta que aqueles dois com certeza queriam ouvir.

– Quanto vocês querem pra ir dar um passeio?

Algumas pessoas acreditavam que com a invenção da fotografia ninguém mais iria querer pinturas, coisa de gente de mente pequena, provavelmente, uma pintura é algo único e mesmo que seja falsificada pelo melhor filho de uma puta especializado do mundo, ainda não será como a original, não só devido aos detalhes técnicos, mas também pela falta de alma que a original carrega. Ao contrário do que muitos pensam a expressão “colocar a alma no trabalho” não é inteiramente figurativa, praticamente qualquer pessoa que tenha alguma sensibilidade espiritual consegue sentir logo que bate o olho em uma pintura um pouco do que o artista queria passar, e não estou falando daquela babaquice de analisar direção de pincel ou que estilo o cara escolheu, tô falando de sentir energia, sentir o pedaço da alma que ficou ali, o que também chamam de impressão energética, essa é a diferença entre uma obra original e uma falsificação, essa é a diferença entre uma pintura e uma imagem gerada por um eletrônico chinês, e o que Hannow estava pra ver agora era essa lógica de colocar alma em quadros elevada a milésima potência, porque o “Pintor” não era conhecido e temido porque fazia quadros lindos, mas pelo que ele mostrava neles, e assim como todo safado egocêntrico ele fazia questão de deixar suas obras 24 horas expostas naquele seu covil/puteiro na Lapa, afinal, sempre tem algum gringo peculiar querendo ver o Brasil por olhos dos “nativos”, e ali qualquer um iria conseguir isso, pagando um devido preço, claro.

– Muito falei de arte e pareceu até um papo contemplativo, não é? Mas essa merda é bem mais perturbadora do que você pode imaginar. – Hannow acende um cigarro em frente a um enorme quadro.

– Eu conheci esse cara da mesma forma como eu conheci todo esse tipo de gente, ele queria me matar e eu queria mata-lo, ele me irritou e eu irritei ele, eu provavelmente estava bêbado e por conta disso não lembro bem como isso terminou, mas sei que não gosto dele e sei também que não gosto do que ele faz. – Uma longa baforada e uma pisada para apagar o cigarro.

– Tá vendo aquele quadro ali, o da garota de olhos verdes? Pois é, muito linda não? Eu a conheci e por conta disso sei por que ela parece tão assustada naquela pintura… Era bem feio, sabe quando você vê alguém bonito na rua? A primeira coisa que você pensa é que ela deve ter uma vida de princesa, o povo burro tem um pouco dessa mentalidade de que pessoas bonitas devem ser melhores que pessoas feias, não sei bem de onde veio esse pensamento porém muitas pessoas, principalmente da velha guarda ainda repetem a frase “morreu tão jovem, e era tão bonitinha”, como se gente bonita fosse o primeiro passo pra ser boa pessoa… Quanta merda não é? E com essa garota não foi diferente, repara nas tatuagens pelo corpo, se ela não pagasse por elas com a buceta com certeza teriam melhor qualidade, porém foi assim que as coisas começaram, um boquete por uma tatuagem no ombro, uma foda por uma fechando a coxa e quando você percebe que pode ganhar coisas dando algo que você já fazia de graça, você começa a experimentar o que te oferecem… E é aí que tá o erro meu irmão. – Hannow dá uma leve tossida e uma cuspida de lado.

– Drogas, viagens, contas, tudo sendo pago com a profissão mais antiga do mundo, pela quantidade de tatuagens ali na pintura você consegue imaginar o tanto de porra que essa mina engoliu, mas se esse fosse o problema ela não seria só uma pintura agora… Droga é foda, vagabundo vende até a mãe pra comprar mais, imagina como é quando basta abrir as pernas que te dão mais e mais, pois é, eu vi essa mina um pouco antes dela virar “tinta” e vou te dizer, você não ia sequer reconhecer, só consegui olhar e dizer “é tu Tatuada?” por causa dos olhos, acho que era a única coisa nela que tinha guardado algum resquício de alma, porque o resto era só farrapo… Mas como você também está num quadro você já deve saber o que aconteceu com ela, nem posso desejar que Deus à tenha, porque sei que ele não tem… – Hannow para por um segundo pra observar a bela pintura de uma jovem branca de olhos verdes e longos cabelos pretos ondulados encostada num divã muito cafona coberta apenas com um lençol branco, olhos brilhantes, como se pudessem ver Hannow, porém o quadro na frente dele dá uma tremida que o tira do transe, ele acende outro cigarro e continua.

– Foi mal cara, você quer saber como ela e vocês todos foram parar aí dentro? Pode deixar que eu explico, mas eu deveria ter trazido uma vodca…


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